sábado, 22 de novembro de 2008

Protesto Contra A Lentidão das Fontes - Mia Couto

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(Tela de Di Cavalcanti)
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Vazaram-se as luas da savana
ossadas pálidas emigraram
dos corpos para o chão
ajoelharam-se os bois
exaustos de carregarem o sol
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Escureceram as horas
nomeadas pela fome
extinguiu-se o sangue da terra
esvaiu-se o leite
num coágulo de saudade
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Restam troncos
sustentos gemidos
mães oblíquas sonhando migalhas
mendigando crenças
para salvar os filhos já quase terrestres
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Quem protege estes meninos
feitos da chuva que não veio?
Que casa lhes havemos de dar?
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Amanhã
quando se entornarem os cântaros do céu
as aves voltarão a roçar a lua
e as cigarras de novo espalharão o canto
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Mas dos meninos
talhados a golpe de poeira
quantos restarão
para saudar o amanhecer dos frutos?
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3 comentários:

Ivani disse...

Olá!
Participei da blogagem coletiva “Hoje é dia de Cecília” e estou, aos poucos, conhecendo os demais participantes.
Devo dizer que me demorei no seu blog – é maravilhoso.
Beijos
Ivani
www.amopapel.blogspot.com

eva disse...

Renata, seu blog é, para mim, uma aprendizagem constante, seja pelos autores dos textos, seja das imagens.
Obrigada, e uma boa semana!

Manuel Marques disse...

Aprender o que quer que seja na mente prodigiosa de Mia Couto é sempre algo para lá do mero prazer. Se então me lembrar que via Internet é o melhor meio que tenho para me saciar do melhor que se escreve em português então só te posso visitar. Sim a ti, porque por artes mágicas ou simples coincidência te foi dada uma sensibilidade fora do comum para escolher o melhor de entre os melhores e Mia Couto é como um Deus vivo.


Beijos!