quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Vou Seguindo ... - Lêda Yara


(Tela de W. Maguetas)
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Sou caminheira nos prados da vida
Seguindo em frente, aonde Deus mandar
Meu dia é o hoje, minha sorte a lida
De só colher o que eu souber plantar.
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Quem mal me fez, apenas me ensinou.
Não guardo mágoas no meu coração.
Quem bem me quis, a vida partilhou.
Juntos vivemos bela comunhão.
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Nos meus alforjes, trago a esperança
De um dia ver um povo mais feliz,
Sorriso bom no rosto da criança,
Passos seguindo, pequeno aprendiz.
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Carrego a fé do homem ser capaz
De fazer sua parte no bem comum
Pois sei que o mundo só terá a Paz
Quando a Paz for um bem de cada um
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Do meu passado, recolhi lições.
Do meu futuro, no hoje vou cuidar.
Deus me ilumine por esses rincões,
Que eu leve amor por onde for passar.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Serenidade És Minha – Raul de Carvalho


(Tela de Van Gogh)
À Memória de Fernando Pessoa

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Vem, serenidade!

Vem cobrir a longa

fadiga dos homens,

este antigo desejo de nunca ser feliz

a não ser pela dupla humanidade das bocas.

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Vem serenidade!

Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros

e com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

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Carrega para a cama dos desempregados

todas as coisas verdes, todas as coisas vis

fechadas no cofre das águas:

os corais, as anémonas, os montros sublunares,

as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

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Vem serenidade,

om o país veloz e virginal das ondas,

com o martírio leve dos amantes sem Deus,

com o cheiro sensual das pernas no cinema,

com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,

com o macio ventre das mulheres violadas,

com os filhos que os pais amaldiçoam,

com as lanternas postas à beira dos abismos,

e os segredos e os ninhos e o feno

e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,

com Deus molhando os olhos

e as esperanças dos pobres.

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Vem, serenidade,

com a paz e a guerra

derrubar as selvagens

florestas do instinto.

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Vem, e levanta

palácios na sombra.

Tem a paciência de quem deixa entre os lábios

um espaço absoluto.

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Vem, e desponta,

oriunda dos mares,

orquídea fresca das noites vagabundas,

serena espécie de contentamento,

surpresa, plenitude.

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Vem dos prédios sem almas e sem luzes,

dos números irreais de todas as semanas,

dos caixeiros sem cor e sem família,

das flores que rebentam nas mãos dos namorados,

dos bancos que os jardins afogam no silêncio,

das jarras que os marujos trazem sempre da China,

dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam

a chegada da força e da vertigem.

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Vem, serenidade,

e põe no peito sujo dos ladrões

a cruz dos crimes sem cadeia,

põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,

põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.

Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,

para junto das campas dos jovens que morreram,

para junto das artérias que servem

de campo para o trigo, de mar para os navios.

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Vem, serenidade!

E do salgado bojo das tuas naus felizes

despeja a confiança,

a grande confiança.

Grande como os teus braços,

grande serenidade!

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E põe teus pés na terra,

e deixa que outras vozes

se comovam contigo

no Outono, no Inverno,

no Verão, na Primavera.

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Vem, serenidade,

para que não se fale

nem de paz nem de guerra nem de Deus,

porque foi tudo junto

e guardado e levado

para a casa dos homens.

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Vem, serenidade,

vem com a madrugada,

vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,

com as núvens que proíbem o céu,

vem com o nevoeiro.

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Vem com as meretrizes que chamam da janela,

volume dos corpos saciados na cama,

as mil aparições do amor nas esquinas,

as dívidas que os pais nos pagam em segredo,

as costas que os marinheiros levantam

quando arrastam o mar pelas ruas.

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Vem serenidade,

e lembra-te de nós,

que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,

um sítio aonde a morte tem todos os direitos.

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Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,

desta roupa de imagens que me cobre

corpo silencioso,

das noites que passei perseguindo uma estrela,

do hálito, da fome, da doença, do crime,

com que dou vida e morte

a mim próprio e aos outros.

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Vem serenidade,

e acaba com o vício

de plantar roseiras no duro chão dos dias,

vício de beber água

com o copo do vinho milagroso do sangue.

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Vem, serenidade,

não apagues ainda

a lâmpada que forra

os cantos do meu quarto,

papel com que embrulho meus rios de aventura

em que vai navegando o futuro.

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Vem, serenidade!

E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,

mais húmida que a pele marítima da cais,

mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,

mais livre que uma ave em seu voo,

mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,

mais humana e alegre que o sorriso das noivas,

do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.

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Vem serenidade,

para perto de mim e para nunca

.… … ... … ... … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

De manhã, quando as carroças de hortaliça

chiam por dentro da lisa e sonolenta

tarefa terminada,

quando um ramo de flores matinais

é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,

quando os astros entregam ao carteiro surpreendido

mais um postal da esperança enigmática,

quando os tacões furados pelos relógios podres,

pelas tardes por trás das grades e dos muros,

pelas convencionais visitas aos enfermos,

formam, em densos ângulos de humano desespero,

uma núvem que aumenta a vâ periferia

que rodeia a cidade,

é então que eu peço como quem pede amor:

Vem serenidade!

Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,

vem, serenidade!

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Com as horas maiúsculas do cio,

com os músculos inchados da preguiça,

vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,

o riso que não é da boca nem dos dentes

mas que se espalha, inteiro,

num corpo alucinado de bandeira.

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Vem serenidade,

antes que os passos da noite vigilante

arranquem as primeiras unhas da madrugada,

antes que as ruas cheias de corações de gás

se percam no fantástico cenário da cidade,

antes que, nos pés dormentes dos pedintes,

a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,

a revolta semeie florestas de gritos

e a raiva vá partir as amarras diárias.

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Vem, serenidade,

leva-me num vagon de mercadorias,

num convés de algodão e borracha e madeira,

na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,

na carnívora concha do sono.

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Leva-me para longe

deste bíblico espaço,

desta confusão abúlica dos mitos,

deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.

Longe das sentinelas de mármore

que exigem passaporte a quem passa.

A bordo, no porão,

conversando com velhos tripulantes descalços,

crianças criminosas fugidas à polícia,

moços contrabandistas, negociantes mouros,

emigrados políticos que vão

em busca da perdida liberdade.

Vem, serenidade

e leva-me contigo.

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Com ciganos comendo amoras e limões,

e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,

e subindo nos ares o livre e musical

facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

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Vem, serenidade!

Os comboios nos esperam.

Há famílias inteiras com o jantar na mesa,

aguardando que batam, que empurrem, que irrompam

pela porta levíssima,

e que a porta se abra e por ela se entornem

os frutos e a justiça.

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Serenidade, eu rezo:

Acorda minha mãe quando ela dorme,

quando ela tem no rosto a solidão completa

de quem passou a noite perguntando por mim,

de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,

a confundir, numa só e lúcida claridade,

a palavra esquecida no coração do homem.

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Vem serenidade

lve os vencidos,

regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos

e dá-lhes nomes novos,

novos ventos, novos portos, novos pulsos.

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E recorda comigo o barulho das ondas,

as mentiras da fé, os amigos medrosos,

os assombros da Índia imaginada,

o espanto aprendiz da nossa fala,

ainda nossa, ainda bela, ainda livre

destes montes altíssimos que tapam

as veias ao Oceano.

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Vem, serenidade,

e faz que não fiquemos doentes, só de ver

que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,

e não cedas demais ao vislumbre de vermos

a nossa idade exacta

outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

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E dá asas ao peso

da melancolia,

e põe ordem no caoss e carne nos espectros,

e ensina aos suicidas a volúpia do baile,

e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,

o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,

na chaminé do sangue.


Serenidade, assiste

à multiplicação original do Mundo:

Um manto terníssimo de espuma,

um ninho de corais, de limos, de cabelos,

um universo de algas despidas e retrácteis,

um polvo de ternura deliciosa e fresca.


Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,

dos humilhantes nós que a garganta irradia,

da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,

com a tua alucinante e alucinada mão,

e põe, no religioso ofício do poema,

a alegria, a fé, os milagres, a luz!



Vem, e defende-me
da traição dos encontros,

do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,

cujo corpo é de ar,

cujo amor é demais

absoluto e eterno

para ser meu, que o amo.
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Para sempre irreal,

para sempre obscena,

para sempre inocente

Serenidade, és minha.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Por Graça Pires ...


(Tela de Monet)
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Que cilada flutua sobre a espuma
da língua enrolada em vocábulos?
Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?
No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ternura - Augusta Campos


(Tela de Neiva Passuello)
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Não sei mais onde ficou impressa
a minha forma,
nas areias da praia,
porque o vento da noite
ocultou nosso segredo.
Sei apenas
que ficou em mim
aquela paz enluarada
que havia sobre tua cabeça
quando abri os olhos.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Mapa - Mário Quintana

(Tela de Rob Gonsalves)
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Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
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(É nem que fosse meu corpo!)
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Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
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Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
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(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
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Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
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Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
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E talvez de meu repouso...
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Concedido pelo querido amigo e escritor Manuel Marques


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Querido amigo Manuel é um privilégio contar com seu prestígio e apreço, muito obrigada! Beijos!!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Por Machado de Assis ...



(Tela de W. Maguetas)
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"A tarde é a hora em que a natureza parece convidar os homens ao amor, à meditação, à saudade, ao arroubo, aos suspiros, a cantar com os anjos, a conversar com Deus".
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

"Todos os homens devem morrer" - Rubem Alves


(Desenho de Portinari)
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A NOTÍCIA DA MORTE voa rápido, ignorando o espaço. Chega dura como golpe de ferro que esmigalha o tempo. As agendas, mensageiras do tempo, dissolvem-se no ar. Aquele dia não lhes pertence. Naquele dia somente uma coisa faz sentido: chorar.
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O poeta W.H. Auden chorou: "Que os relógios sejam parados, que os telefones sejam desligados, que se jogue um osso ao cão para que não ladre mais, que o piano fique mudo e o tambor anuncie a vinda do caixão e seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço - e os guardas usem finas luvas cor de breu. É hora de apagar as estrelas - são molestas -, hora de guardar a lua, desmontar o sol brilhante, de despejar o mar e jogar fora as florestas...
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"A notícia chegou e me faz chorar. O Waldo César morreu. A morte há muito já se anunciara. Não sei os detalhes. Sei que há cerca de três anos ele se recolheu em um lugar que muito amava, na companhia de árvores, riachos e bichos.
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Será que ele já sabia?
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Os que ainda não sabem que vão morrer falam sobre as banalidades do cotidiano. Mas aqueles que sabem que vão morrer vêem as coisas do cotidiano como "brumas e espumas". Por isso preferem a solidão. Não querem que o seu mistério seja profanado pela tagarelice daqueles que ainda não sabem.
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O corpo de um morto: presença de uma ausência. Mário Quintana brincou com sua própria morte dizendo o epitáfio que deveria ser escrito no seu túmulo: "Eu não estou aqui..."Se não está ali, por onde andará? Essa foi a pergunta que Cecília Meireles fez à sua avó morta: "Onde ficou o teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta como um espelho. E tristemente te procurava. Mas também isso foi inútil, como tudo o mais".
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Também o olhar, para onde foi? O velho Bachelard também procurava sem encontrar a resposta: "A luz de um olhar, para onde ela vai quando a morte coloca seu dedo frio sobre os olhos de um morto?".
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Por não saberem a resposta, os amigos conversam. Falam sobre memórias de alegria que um dia foram a substância de uma amizade. Falam procurando o sentido da ausência. Para exorcizar o medo...
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O Waldo amava a vida. Amava a vida porque conhecia a morte. Já a experimentara na morte trágica da Ana Cristina, sua filha poeta, e de sua companheira Maria Luiza. Mas ele triunfava sobre o horror da morte pela magia da música. Assentava-se ao órgão e tocava seu coral favorito: "Todos os homens devem morrer", de Bach.
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De todas as artes, a música é a que mais se parece conosco. Para existir, ela tem de estar sempre a morrer. Nesse preciso momento fez-se silêncio no meu apartamento. Antes havia música, a "Sonata ao Luar". Mas, uma vez realizada a sua perfeição, Beethoven a matou com dois acordes definitivos. Tudo o que é perfeito precisa morrer. Creio que foi dessa proximidade musical com a morte que o Waldo encontrou o seu desejo de viver intensamente.O corpo morto do meu amigo me fez pensar sobre a beleza da vida. Por isso, como ele, volto-me para Bach. E é isso o que vou fazer: vou ouvir o CD "Bach", que o Grupo Corpo dançou. Se o Waldo estiver por perto, ele parará para ouvi-lo e conversaremos em silêncio...
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Fonte: Folha de S.Paulo, Cotidiano, 12 de junho de 2007
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Por Alice Ruiz ...

(Tela de Isabel Guerra)
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olhar o mesmo olho
com outros olhos
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em outro olhar
o mesmo olho
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nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho
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sábado, 10 de janeiro de 2009

Poesia, o nada que é tudo - Affonso Romano de Sant'Anna

(Tela de Mary Scott)
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Certa vez, o escritor argentino Santiago Kovadlof narrou que era adolescente quando entrou na sala de aula um professor que começou dizendo: “Quero lhes comunicar que sou professor de filosofia. E que filosofia não serve para nada”. Isto posto, diante da perplexidade dos alunos, acrescentou: “Peço-lhes apenas alguns minutos de atenção que vou lhes explicar o que é o ‘nada’”. Ao final da aula, diz Kovadlof, o seu futuro estava decidido: seria professor de “nada”, ou seja, de filosofia. Pois com a poesia ocorre algo semelhante. Dizem que a poesia não serve para nada. E, no entanto…
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Quando lhe disserem que a poesia não tem mais lugar nesse mundo dos diabos (porque no dos deuses sempre tem), não acredite. Quando lhe disserem que no planeta Bush continuam erguendo muros para separarem homens e culturas, observe que a poesia ainda pode congregar vozes e esperanças. E se eu tivesse dúvidas sobre isto, aqui nesta Feira de Livros de Frankfurt, onde as notícias , em geral, giram em torno de cifras de milhões, tanto de leitores de tal ou qual autor ou, então, de quanto o romancista X ou Y recebeu de adiantamento por um livro ainda não escrito, nesta feira pragmática e globalizada, a poesia abriu um clareira nos espessos interesses da selva capitalista.
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É que, no meio de tantos estandes onde os livros, como num esquife, aguardam que alguém lhes dê vida com o sopro de sua leitura, o “Internazionales Zentrum” instalou um auditório onde poetas convidados se apresentam. E preparou uma jornada especial chamada de “A noite dos 1001 poemas”, onde oito poetas selecionados, da China ao Iraque, da Argentina à Angola, do Marrocos à Guatemala, do Canadá ao Brasil, dizem seus poemas. Enquanto falamos, aparece num telão a tradução para o alemão. E após uma espécie de “talk show”, em que cada um responde questões sobre sua vida e obra, atores alemães fazem a leitura final de mais poemas de cada autor. São cinco horas ininterruptas de poesia. As pessoas passam, param e ficam ouvindo esses estranhos seres caídos de outra galáxia.
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O primeiro a apresentar-se é Humberto Ak’abal. Ergue-se com sua cabeleira de índio maya, com uma camisa branca com bordados coloridos e alguns colares no pescoço, e entoa um poema-hino, como o faziam os shamans de sua tribo, desde os tempos imemoriais do canto cosmogônico maya - o Popol Vuh. De repente, na moderníssima Frankfurt, cheia de prédios de aço e vidro, estamos em torno da fogueira acesa da palavra.
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E assim, até o final, quando o poeta marroquino Abdalla Zorika e sua esposa, a cantora Touria Hadrouni, sem acompanhamento instrumental, com a pureza tocante de sua voz, arranca das margens milenares do Mediterrâneo a lembrança de que poesia essencialmente é canto e palavra. Durante a apresentação dos colegas, eu tentava olhá-los com a estranheza que se tem que ter nos olhos quando queremos entender algo em toda a sua “estranhidade”. Por exemplo, aquele poeta chinês Xiao Kaiyn lendo seus textos e eu imaginando-o, lá nos arredores de Pequim, juntando seus caracteres para expressar sentimentos e perplexidades, tanto quanto esse iraquiano Sangon Bouloes ou a poeta da Indonésia, que ouvi ontem, assim como o francês-espanhol Claude Esteban, que noutra oportunidade se apresentou. Ali está Ana Paula Tavares, falando de sua sofrida Angola, Carmen Boulosa narrando a tragédia que viveu naquele 11 de setembro em Nova York, e Todd Swift, irrequieto e criativo poeta canadense, convertendo guerra e história em poesia. E, no entanto, dizem que a poesia não interessa a ninguém, que os poetas não têm nada que fazer nesta cruel sociedade eletronicamente bilionária e humanamente miserável.
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Nisto tudo, algo intrigante e mágico. Mesmo quando os poemas eram falados numa língua que não se entendia, uma imponderável comunicação cruzava o ambiente. A voz, ou seja, o fluir vibrante de uma certa melodia e ritmo; o corpo — mesmo os pequenos gestos intencionais e involuntários — ou o brilho no olhar constituíam parte de um texto expressivo. Isto lembrava-me de algo narrado por Chomsky- esse cientista da linguagem que narrou que um certo linguista, assistindo à leituras de poemas em línguas que não conhecia, era capaz de dizer quais eram os melhores e piores poemas e até a apontar quem seria o vencedor.
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Pode até haver um certo exagero em quem narrou-me essa história, mas isto lembra-me Alfonso Reyes e seu célebre estudo sobre as “jitanjáforas”, nome que deu a esses poemas que são jogos de palavras aparentemente ininteligíveis, mas que acabam por exprimir e/ou comunicar alguma coisa, tanto nos rituais quanto no dia-a- dia.
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Minha cabeça tenta entender essa coisa intrigante. Se os editores dizem que poesia não vende, que poesia não rende, que ninguém compra poesia, que poesia não se negocia nas bolsas de valores, então, Senhores do Conselho de Sentença, dizei-me vós, por que cresce cada vez mais o número de poetas sobre a terra? Se a poesia não serve para nada, e se “lutar com palavras é a luta mais vã”, porque milhões de poetas recomeçam essa luta “mal rompe a manhã”?
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Na verdade, na verdade vos digo: há mais poetas hoje que ontem, e amanhã haverá mais poetas que hoje. E o caso da poesia é o mesmo da arte em geral. A poesia, como a arte, não morre nunca, porque mais que um gênero literário, é uma “função” da mente humana. Ela dá voz a algo que nenhuma outra arte ou forma de expressão pode expressar por ela. E algumas, não poucas, mas milhões e milhões de pessoas têm necessidade da poesia como uma “segunda língua”. Por isto cantam, por isto escrevem, por isto pegam seu dinheirinho e editam seus livros ou saem mundo afora falando seus poemas. E ao contrário da maioria das outras artes, que se transformaram predominantemente em negócio, a poesia vive uma situação ambígua: porque a palavra do poeta não se converteu em “commodity” e produto descartável que segue a moda e o mercado, ela guarda uma autenticidade e uma independência que a singularizam.
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Retomemos aquela afirmativa inicial de que a poesia e a filosofia não servem para nada. No entanto, como já o disse em outro texto e contexto, reinventando as leis naturais de Lavoisier:
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“Na poesia nada se perde. Na poesia o nada se cria e o nada se transforma”.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Por Lya Luft ...


(Tela de Eng Tay)
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"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bem e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos - e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna tão simples e tão indiferente..."
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Por Mário Quintana...



(Tela de Barbara Tyson)
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"Sonhar é acordar-se para dentro".
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vandalismo - Augusto dos Anjos


(Tela de Gary Benfield)
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Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
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Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
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Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos.
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E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Paul Klee - Roseana Murray

(Tela de Paul Klee)
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Os olhos como barcos,
entro escondida
num quadro do Klee.
O céu é a rua,
e o equilibrista,
quase sem respirar,
me ensina os segredos da vida.
Sobretudo, ele me diz,
é preciso saber conservar
as pernas no ar
e manter o olhar perdido;
Carregar pedaços de lua
no pensamento e sonhar.
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A vida é pura navegação
e saio do quadro
como um pássaro invisível.
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