quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A lucidez perigosa - Clarice Lispector


(Tela de Neiva Passuello)
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Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
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Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
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Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
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Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
– essa clareza de realidade
é um risco.
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Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
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Um comentário:

Chica disse...

Muito lindo,Renata.Imagono o teu trabalho em selecionar tão bem!um beijo,chica