sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dia de chuva - Cecília Meireles


(Tela de Yolanda Mohalyi)
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As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.
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Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aereos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.
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Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...
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quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abísmos...
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Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...
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Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e com limo pela face,
ali ficasse batendo
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- ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...
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Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...
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E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.
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Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.
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2 comentários:

eva disse...

É sempre um prazer passear no seu blog. E o poema de Natal, além de muito bonito, é uma excelente carta de intenções para a vida.
Que assim possamos ser!
Que 2009 lhe traga as maiores felicidades. Para si e todos os que lhe são queridos.
PS - Se a Renata não se importar, gostaria de usar a citação de Helena Kolody, presente no seu blog, como citação para Janeiro, no meu blog.
Obrigada!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Renata, prazer em conhecê-la!
Visito-a devido ao fato de tê-la encontrado no blog da minha dileta amiga, Eva. Posso, assim, comprovar que, pela elevada Cultura dela, seu blog só poderia conter toda essa beleza e graciosidade e com esse Poema da indiscutível Cecília Meireles.
Parabéns!
Um Bom 2009!