quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Não-Coisa - Ferreira Gullar



O que o poeta quer dizer

no discurso não cabe

e se o diz é pra saber

o que ainda não sabe.
Uma fruta uma flor

um odor que relume…

Como dizer o sabor,

seu clarão seu perfume?
Como enfim traduzir
na lógica do ouvido

o que na coisa é coisa

e que não tem sentido?

A linguagem dispõe

de conceitos, de nomes

mas o gosto da fruta

só o sabes se a comes
só o sabes no corpo

o sabor que assimilas

e que na boca é festa

de saliva e papilas
invadindo-te inteiro

tal do mar o marulho

e que a fala submerge

e reduz a um barulho,
um tumulto de vozes

de gozos, de espasmos,

vertiginoso e pleno

como são os orgasmos
No entanto, o poeta

desafia o impossível

e tenta no poema

dizer o indizível:
subverte a sintaxe

implode a fala, ousa

incutir na linguagem

densidade de coisa
sem permitir, porém,

que perca a transparência

já que a coisa é fechada

à humana consciência.
O que o poeta faz

mais do que mencioná-la

é torná-la aparência

pura — e iluminá-la.
Toda coisa tem peso:

uma noite em seu centro.

O poema é uma coisa

que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar

de uma imprecisa voz

que não quer se apagar

— essa voz somos nós.
.
.
(Tela de Philip Craig, Terrace, Crillon le Brave)

Um comentário:

Edna Battaglini disse...

ahh os poetas!
Ferreira Gullar e sua não-coisa, arrebata!
abraços,sentindo sua falta lá, apareça qdo der

(bela sua escolha da imagem,uma tela de Philip Craig, ficou encantador)