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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ah, um Soneto ... - Álvaro de Campos

(Tela de John Duncan)
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Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
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No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
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Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
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Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falva...e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Às Vezes - Álvaro de Campos


(Tela de Carl Spitzweg)
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Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
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Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Por Ricardo Reis ...

(Tela de Neiva Passuello)
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Estás só.
Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
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domingo, 8 de junho de 2008

Ah, um soneto... - Álvaro de Campos

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Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
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No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
.
Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava...e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Por Alberto Caeiro ...


(Tela de Di Cavalcanti - Pescador Galego)
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Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
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Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
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Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
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Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
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Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Por Alberto Caeiro


(Tela de Neiva Passuello - Série Pinheiros - X)
www.neiva.passuello.com.br
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O Guardador de Rebanhos

II
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O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

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domingo, 6 de abril de 2008

Por Alberto Caeiro


Saúdo todos que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos..

De o Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

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sexta-feira, 21 de março de 2008

O que não Conheço - Ricardo Reis


(Tela de Charles Edouard Delort -The welcome visitor)
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Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.

terça-feira, 18 de março de 2008

O Luar - Alberto Caeiro


O luar quando bate na relva

Não sei que cousa me lembra…

Lembra-me a voz da criada velha

Contando-me contos de fadas.

E de como Nossa Senhora vestida de mendiga

Andava à noite nas estradas

Socorrendo as crianças maltratadas …

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Se eu já não posso crer que isso é verdade,

Para que bate o luar na relva?..



terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Por Ricardo Reis


Da lâmpada nocturna

A chama estremece

E o quarto alto ondeia.

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Os deuses concedem

Aos seus calmos crentes

Que nunca lhes trema

A chama da vida

Perturbando o aspecto

Do que está em roda,

Mas firme e esguiada

Como preciosa

E antiga pedra,

Guarde a sua calma

Beleza contínua.

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(Tela de Tarsila do Amaral - Sol Poente)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Por Ricardo Reis


Em vão procuro o bem que me negaram.

As flores dos jardins dadas aos outros

Como hão-de mais que perfumar de longe

Meu desejo de tê-las?

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12-5-1921

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(Tela de Neiva Passuello - Primavera em Flor)