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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Por Machado de Assis ...

(Tela de Di Cavalcanti)
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"No dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba".
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sábado, 22 de novembro de 2008

Protesto Contra A Lentidão das Fontes - Mia Couto

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(Tela de Di Cavalcanti)
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Vazaram-se as luas da savana
ossadas pálidas emigraram
dos corpos para o chão
ajoelharam-se os bois
exaustos de carregarem o sol
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Escureceram as horas
nomeadas pela fome
extinguiu-se o sangue da terra
esvaiu-se o leite
num coágulo de saudade
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Restam troncos
sustentos gemidos
mães oblíquas sonhando migalhas
mendigando crenças
para salvar os filhos já quase terrestres
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Quem protege estes meninos
feitos da chuva que não veio?
Que casa lhes havemos de dar?
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Amanhã
quando se entornarem os cântaros do céu
as aves voltarão a roçar a lua
e as cigarras de novo espalharão o canto
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Mas dos meninos
talhados a golpe de poeira
quantos restarão
para saudar o amanhecer dos frutos?
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Língua Mater Dolorosa - Natália Correia


(Tela de Di Cavalcanti)
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Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luiz Vaz a chama joalhada
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tu u casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
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eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
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Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.
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terça-feira, 13 de maio de 2008

Traduzir-se - Ferreira Gullar


(Tela de Di Cavalcanti)
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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
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Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
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Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
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Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
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Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
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Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
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Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Reflexivo - Affonso Romano de Sant' Anna



(Tela de Di Cavalcanti - Paquetá)


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O que não escrevi, calou-me.


O que não fiz, partiu-me.


O que não senti, doeu-se.


O que não vivi, morreu-se.


O que adiei, adeus-se.


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Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Anoitecer na Praia - Hermes Fontes

(Tela de Di Cavalcanti - Casario e Barcos)
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Junto ao mar, as crianças

são mais alegres; as mulheres são

mais harmoniosas,

mais naturais.

E, enquanto a ondulação

das águas marulhosas

arma, em seu ritmo, imprevistas danças

isócronas, mas sempre desiguais;

e a escumilha na praia arma frouxéis de rosas,

efêmeros, sutis, quase irreais;

e as crianças, à beira da água, armam castelos

na úmida areia,

sob os olhos da miss, ou da ama que as ladeia,

e o distraído encanto dos papais;

e os velhos, em seus trajos mais singelos,

sob os toldos velados,

repousados,

sorriem cachimbando,

recordando

coisas imemoriais, —

cada mulher que passa é atávica sereia;

é atávico tritão

cada atleta que emerge à ondulação

da correnteza rejuvenescente;

é atávico tritão

aquele nadador adolescente

ora a subordinar o mar fremente

que resfolega e ondeia,

ao ritmo do seu próprio coração...

(...)

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quinta-feira, 27 de março de 2008

Por João Guimarães Rosa


"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia".
(Tela de Di Cavalcanti - Tempos Modernos)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Conselho - Helena Kolody


Como o raio de sol torna um quarto risonho,

Alegra o coração a eterna luz do sonho.

Se as sombras do caminho esperas dissipar,

Conserva dentro d'alma, eternamente erguida,

A lâmpada de um sonho, inquieto como a vida,

Alto como o infinito, imenso como o mar.
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(Di Cavalcanti - Família na Praia)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Meu Amado








Meu amado é um grande astro


viajante de muitas galáxias.


Nos conhecemos, em sonho,


na Estrela Dalva.


As contelações cintilam o nosso amor,


Saturno nos presenteia com seus anéis.


Nosso encontro real resplandecerá o universo...


Uma magnífica explosão de meteoros


ocorrerá em todas as galáxias,


quando finalmente, aqui na Terra,


nossos ansiosos lábios encontrarem-se


até o final dos tempos.
Di Cavalcanti - Sem título (Figura feminina deitada), sd.nanquim s/ papel