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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Poema da Noite - Targélia Barreto de Menezes

Tela de Tarsila do Amaral
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Todas as tardes justamente à hora
Em que o sol desce ao íntimo aposento,
Também sinto descer meu pensamento
Por entre sonhos, aguardando a aurora.
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Alma enlevada, coração atento,
Descubro em tudo vibração sonora,
Pois a vida é o espírito que chora
Em plena terra, em pleno firmamento.
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Ante as sombras no vale e na campina,
Junto à mulher que em extase se inclina
E sempre exulta de emoção ao vê-las,
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Diz o poeta em fantasia imerso,
Que a noite é a alma de luto do universo,
Orvalhada de lágrimas de estrelas.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As Brisas - Machado de Assis

(Tela de Tarsila do Amaral)
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Deu-nos a harpa eólia a excelsa melodia
Que a folhagem desperta e torna alegre a flor,
Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?

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Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?
Que alma de serafim volteia aos lábios teus?
Donde houveste o segredo e o poderoso encanto
Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Amigos Meus - Vinícius de Moraes


(Tela de Tarsila do Amaral)
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Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
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Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso figado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Mas sobretudo não morrais, amigos meus!
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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sedução - Adélia Prado


(Tela de Tarsila do Amaral)
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A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Por Alice Ruiz ...


(Tela de Tarsila do Amaral - A Lua)
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"Sou uma moça polida
levando
uma vida lascada"
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sexta-feira, 4 de abril de 2008

Iniciação - Orides Fontela



(Tela de Tarsila do Amaral - Paisagem com Touro)
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Se vens a uma terra estranha
curva-te
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se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te
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— és infinitamente mais estranho
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segunda-feira, 24 de março de 2008

Poema Natural - Adalgisa Nery

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(Tela de Tarsila do Amaral - 'Manteau Rouge')

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Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

Tardezinha no Interior - Leonor Cordeiro

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(Tela de Tarsila do Amaral - Paisagem Caipira)
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GENTE NAS JANELAS TOMANDO A FRESCA
CARROS DOBRANDO ESQUINAS SEM SINAIS
CRIANÇAS CHORAMINGANDO ATRÁS DO CACHORRO
CHEIRO DE GRAMA MOLHADA
FONTE LUMINOSA ACESA
E O SEU ABRAÇO
QUE DÁ COR À NOITE !

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Por Ricardo Reis


Da lâmpada nocturna

A chama estremece

E o quarto alto ondeia.

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Os deuses concedem

Aos seus calmos crentes

Que nunca lhes trema

A chama da vida

Perturbando o aspecto

Do que está em roda,

Mas firme e esguiada

Como preciosa

E antiga pedra,

Guarde a sua calma

Beleza contínua.

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(Tela de Tarsila do Amaral - Sol Poente)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Solo de Clarineta - Adélia Prado


As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,

do que mais gosto em flor.

Do seu grego existir de boniteza,

sua certa alegria.

É preciso ter morrido umaa vez e desejado

o que sobre as lápides está escrito

de repouso e descanso, pra amar seu duro odor

de retrato longínquo, seu humano conter-se.

As severas.

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(Tela de Tarsila do Amaral - Garimpeiro)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Paleta - Albano Martins




Tens uma paleta


a que faltam


algumas cores. Talvez


porque há substâncias


a que não soubeste


dar expressão. Ou porque elas


são incolores. Ou porque


em toda a realidade


há fendas


que nem pela palavra


nem pela cor


alguma vez


saberás preencher.
...
...
(Tela de Tarsila do Amaral - A Feira I)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Cantiga dos Pastores - Adélia Prado


À meia noite no pasto,

guardando nossas vaquinhas,

um grande clarão no céu

guiou-nos a esta lapinha.

Achamos este Menino

entre Maria e José,

um menino tão formoso,

precisa dizer quem é?

Seu nome santo é Jesus,

Filho de Deus muito amado,

em sua caminha de cocho

dormia bem sossegado.

Adoramos o Menino

nascido em tanta pobreza

e lhe oferecemos presentes

de nossa pobre riqueza:

a nossa manta de pele,

o nosso gorro de lã,

nossa faquinha amolada,

o nosso chá de hortelã.

Os anjos cantavam hinos

cheios de vivas e améns.

A alegria era tão grande

e nós cantamos também:

Que noite bonita é esta

em que a vida fica mansa,

em que tudo vira festa

e o mundo inteiro descansa?

Esta é uma noite encantada,

nunca assim aconteceu,

os galos todos saudando:

O Menino Jesus nasceu!
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(Tela de Tarsila do Amaral - Natal)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Viver a Alegria


Abro as janelas


para arejar a alma empoeirada e


renovar o semblante endurescido pelo tempo.




É hora de correr a favor do tempo,


daquele que não volta jamais,


para não perder oportunidades:


viver intensamente cada minuto de alegria.




Também para dizer ao mundo


que estou viva, vibro e pulso,


não sou apenas um ser robótico


para o qual a felicidade é mera lembrança distante.
Tela de Tarsila do Amaral - Imagem II

domingo, 2 de dezembro de 2007

Lembrete - Carlos Drummond de Andrade


Se procurar bem, você acaba encontrando

não a explicação (duvidosa) da vida,

mas a poesia (inexplicável) da vida.
Tela de Tarsila do Amaral - Manaca