Mostrando postagens com marcador Yolanda Mohalyi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Yolanda Mohalyi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dia de chuva - Cecília Meireles


(Tela de Yolanda Mohalyi)
.
.
As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.
.
Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aereos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.
.
Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...
.
quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abísmos...
.
Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...
.
Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e com limo pela face,
ali ficasse batendo
.
- ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...
.
Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...
.
E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.
.
Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.
.