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terça-feira, 6 de abril de 2010

Por Fernando Pessoa ...


(Tela de Gustave Caillebotte)
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"Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer."
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(Fernando Pessoa)
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Por Fernando Pessoa...

(Pintura de Alma Tadema)
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Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.
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Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
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Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Cai Chuva do Céu Cinzento - Fernando Pessoa


(Tela de Izabel Cardoso)
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Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
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Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
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Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

As Lentas Nuvens Fazem Sono - Fernando Pessoa


(Tela de Rob Gonsalves)
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As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.
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E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.
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Que bom, à margem do ribeiro
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Saber que é ele que vai indo...
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo.
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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Emoção e Poesia - Fernando Pessoa


(Tela de August Macke)
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Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado. A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstrata.
Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império de seu país e para a história de seu povo não deseja - não pode desejar ter muitos de seus soldados assassinados(mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação de sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para seus homens) o golpe melhor, embora o faça perder cem mil homens, em vez da estratégia pior, ou mesmo a mais lenta, que lhe pode deixar nove décimos daqueles homens com quem e por quem luta, e a quem, em geral, ama.
Torna-se um artista por amor a seus compatriotas, e expõe-nos à carnificina por causa de sua estratégia.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Basta Pensar em Sentir - Fernando Pessoa


(Tela de Wassily Kandinsky)
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Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
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Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
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Viver é não conseguir.
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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ao Longe, ao Luar - Fernando Pessoa


Ao longe, ao luar,

No rio uma vela,

Serena a passar,

Que é que me revela?

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Não sei, mas meu ser

Tornou-se-me estranho,

E eu sonho sem ver

Os sonhos que tenho.

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Que angústia me enlaça?

Que amor não se explica?

É a vela que passa

Na noite que fica.

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(Tela de Antônio Hélio Cabral - Leitura)

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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Eu Amo Tudo o Que Foi - Fernando Pessoa


Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

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(1931)
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(Tela de Pedro Weingartner - Fim de Ceifa)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Fernando Pessoa


O relógio de sol partido marca

Do mesmo modo que o inteiro o lapso

Da mesma hora perdida...

O mesmo gozo com que esqueço ou julgo,

A vida, finda, me a mim mesmo mostra

Mais fatal e mortal,

Para onde quer que siga a certa noite

Como quer que a entendamos.


(30.01.1927)
(imagem de Oscar Pereira da Silva - O Consertador de Porcelanas)